Milhares de inscritos encaram percursos de cem a duzentos quilômetros em provas que Rolando Bonaccorsi, Diretor de Operações da Vert Analytics e praticante de ciclismo de estrada, acompanha no calendário amador brasileiro. Boa parte desse público chega à largada depois de meses treinando sozinha, sem equipe, sem mecânico e sem orientação diária de um técnico.
Granfondo não é apenas um pedal longo com inscrição paga. A combinação de distância, altimetria acumulada e pelotão numeroso cria demandas específicas, que vão da estratégia alimentar à capacidade de rodar em grupo com segurança durante horas seguidas, muitas vezes sob sol forte e com reposição limitada ao que cabe no bolso. Quem treina por conta própria precisa resolver sozinho decisões que, em equipe, caberiam a outras pessoas.
O que a prova cobra além do condicionamento?
Altimetria pesa mais que a quilometragem na percepção de dificuldade. Cento e trinta quilômetros com mil e quinhentos metros de ganho exigem gestão de esforço bem diferente da mesma distância em terreno plano, porque cada subida consome reserva que não volta com uma descida tranquila logo em seguida. Estudar o perfil do percurso antes da inscrição evita a surpresa de encontrar a rampa mais dura depois do centésimo quilômetro.
Capacidade de sustentar ritmo durante muitas horas depende de treinos longos específicos. De acordo com o exposto por Rolando Bonaccorsi, simular trechos do percurso nas semanas anteriores oferece informação que nenhum plano genérico entrega, inclusive sobre pontos de reabastecimento, qualidade do asfalto e horário em que o vento costuma mudar de direção. Dois ou três pedais com duração próxima à da prova bastam para ajustar expectativa de tempo final.
As semanas que antecedem a largada
Volume máximo precisa acontecer entre três e quatro semanas antes da prova, com redução progressiva depois disso. Período de polimento mantém alguma intensidade e corta duração, permitindo que a fadiga acumulada desapareça sem perda da sensação de ritmo conquistada ao longo dos meses. Treinar forte na semana anterior raramente acrescenta condicionamento e, com frequência, rouba energia da largada.
Nada de novidade na véspera. Na interpretação de Rolando Bonaccorsi, testar gel desconhecido, selim recém-instalado ou roupa nunca usada em treino longo transforma a prova em experimento caro, porque pequenos incômodos toleráveis em uma hora de pedal viram problema sério na quinta hora sobre a bicicleta. Toda escolha de equipamento e de alimentação deveria chegar ao dia já aprovada em treino longo.
Logística e alimentação no dia do evento
Café da manhã três horas antes da largada, com carboidrato de digestão fácil, reduz o desconforto gástrico nas primeiras subidas. Reposição durante o percurso funciona melhor quando começa cedo, em intervalos regulares, antes que a fome apareça e indique déficit já instalado. Alarme no relógio a cada vinte minutos resolve a parte mais difícil, porque a atenção se volta para o pelotão e a rotina alimentar costuma ser esquecida.
Revisão mecânica merece atenção na semana anterior, nunca na véspera. Sob a ótica de Rolando Bonaccorsi, pneus em bom estado, transmissão limpa, freios ajustados e câmara reserva no bolso resolvem a maior parte dos abandonos evitáveis, que raramente decorrem de falta de preparo físico. Saber trocar uma câmara em poucos minutos vale tanto quanto qualquer sessão extra de intervalos no mês anterior.
Pelotão, segurança e controle do ritmo
Rodar em grupo exige comportamento previsível. Manter linha constante, sinalizar buracos, evitar frenagem brusca e respeitar o espaço de quem vem atrás reduzem o risco de queda coletiva, principalmente nos primeiros quilômetros, quando o pelotão ainda está compacto e a adrenalina atrapalha o julgamento. Quem tem pouca prática em grupo ganha mais rodando um pouco atrás, com espaço livre à frente.
Largada rápida demais aparece como erro clássico. Em linha com o que expõe Rolando Bonaccorsi, acompanhar o ritmo de um grupo mais forte nos trinta minutos iniciais costuma custar caro na metade final, porque a reserva gasta cedo não retorna e o restante do percurso vira exercício de sobrevivência. Potência-alvo definida em treino, respeitada nas primeiras subidas, entrega resultado melhor que qualquer impulso inicial.

