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Brasil

Agricultura regenerativa avança no Cerrado goiano e começa a provar sua viabilidade econômica

Diego VelázquezPor Diego Velázquezjunho 25, 2026Nenhum comentário6 Mins Read2 visualizações

Projeto conduzido pela Embrapa no sudoeste de Goiás monitora lavouras reais e aponta retorno financeiro para produtores familiares dentro de três anos, reposicionando o debate sobre o futuro do agronegócio no bioma

O Cerrado nunca foi apenas pano de fundo para a produção agrícola. É berço de nascentes, reservatório de biodiversidade e, cada vez mais, território de um experimento que pode redefinir como Goiás produz alimentos nas próximas décadas. O projeto Regenera Cerrado, conduzido pela Embrapa Soja em parceria com pesquisadores e produtores do sudoeste goiano, saiu do campo teórico e passou a monitorar, em condições reais de produção, práticas de agricultura regenerativa já em curso na região.

Os primeiros três anos de acompanhamento indicam ganhos econômicos em propriedades familiares de até 400 hectares em comparação com os sistemas convencionais. Os pesquisadores ainda não divulgaram o percentual exato de diferença, mas a tendência positiva já é suficiente para sustentar o argumento central do projeto: a recuperação do solo e da biodiversidade microbiana não é apenas uma pauta ambiental, mas uma estratégia de rentabilidade. A Embrapa apresentou os resultados mais recentes em evento realizado em Londrina, no Paraná, ampliando o alcance do debate para além das fronteiras goianas.

O campo como laboratório: como o modelo funciona na prática

Um dos casos mais emblemáticos do Regenera Cerrado está na Fazenda Tropical, em Rio Verde (GO), que acumula mais de dez anos de manejo regenerativo em cerca de 4 mil hectares de grãos por ano, integrando soja, milho, pecuária, hortaliças e piscicultura. O empresário Erik Van Den Broek, responsável pela propriedade, é direto sobre as escolhas do sistema: o modelo não elimina o uso de defensivos químicos, mas organiza as decisões com base em monitoramento constante e análise técnica de campo, reduzindo o uso por racionalidade, não por ideologia.

Essa abordagem pragmática é o que diferencia o Regenera Cerrado de iniciativas meramente experimentais. Ao trabalhar com produtores que já adotam o sistema em escala comercial, a Embrapa consegue validar práticas em condições que refletem a realidade do agronegócio goiano, com todos os seus riscos climáticos, pressões financeiras e exigências de produtividade. O resultado é um banco de dados cada vez mais sólido sobre o que funciona, em quais solos e em qual escala.

Clima, irrigação e a disputa por água no coração do bioma

O contexto climático torna esse debate ainda mais urgente. O professor Eduardo Dourado Argolo, pesquisador da Universidade Evangélica de Goiás (UniEVANGÉLICA) e especialista em sensoriamento remoto, explica que o Cerrado é um dos grandes berços das águas do Brasil. Muitas nascentes e importantes bacias hidrográficas têm origem no bioma, o que torna a saúde do solo uma questão de segurança hídrica nacional, não apenas de produtividade agrícola.

A resposta do setor produtivo a esse cenário tem sido aumentar o investimento em irrigação. Segundo a Embrapa, o Centro-Oeste chegou a 608.816 hectares irrigados por pivôs centrais em 2024, com Goiás ocupando a terceira posição entre os estados com maior área irrigada por esse sistema, totalizando 345.530 hectares. Uma operação recente de R$ 20 milhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), estruturada pela empresa GCB para a Fazenda Canaã, localizada em Bela Vista de Goiás, exemplifica o movimento: os recursos serão usados para compra de novos pivôs, com o objetivo de reduzir a dependência das chuvas e aumentar a previsibilidade da produção.

Goiás no centro do agronegócio aeroagrícola mundial

O estado também foi escolhido para sediar o Congresso da Aviação Agrícola do Brasil (Congresso AvAg) 2026, considerado o maior evento mundial do segmento. O encontro será realizado em agosto, no Condomínio Aeronáutico Liberty, em Goianápolis, com expectativa de reunir cerca de 5 mil participantes entre empresários, pilotos, fabricantes e pesquisadores. Goiás ocupa a quarta posição entre os estados com maior frota aeroagrícola do país, e o aeródromo de Goiânia se consolidou como um dos maiores polos de manutenção de aeronaves do Brasil.

A escolha de Goiás para sediar o evento não é casual. A região Centro-Oeste concentra a maior parte da frota aeroagrícola brasileira, e o estado tem se consolidado como polo do setor tanto pelo crescimento da atividade quanto pela infraestrutura disponível. Para o setor, a aviação agrícola é considerada um dos pilares da competitividade do agronegócio nacional, viabilizando aplicações em janelas de tempo restritas que não seriam possíveis por outros meios.

Preservação com remuneração: o Cerrado em Pé como política pública

No plano das políticas ambientais, Goiás mantém o programa Cerrado em Pé, que remunera produtores rurais pelo serviço ambiental de preservar áreas do bioma além das reservas legais obrigatórias. O pagamento anual é de R$ 498 por hectare para quem comprova a conservação voluntária, e de R$ 664 para quem também recupera ao menos uma nascente degradada por ano. Os recursos vêm do Fundo Estadual do Meio Ambiente (Fema).

O impacto da política é visível nos dados. Goiás foi o estado que mais reduziu o desmatamento em 2024 segundo a rede MapBiomas, com queda de 71,9% na comparação com o ano anterior. Os alertas passaram de 3.519 para 659, e a área afetada caiu de 69,3 mil hectares para 19,4 mil hectares. Esses números colocam o estado em posição de protagonismo na agenda ambiental brasileira, ainda que a pressão sobre o bioma permaneça estrutural.

O que o futuro reserva para o agronegócio goiano

A Embrapa projeta que o consumo nacional de alimentos pode saltar para mais de 77 milhões de toneladas em 2050, com biológicos e insumos verdes liderando a virada tecnológica no campo. Para Goiás, que já é um dos maiores produtores agrícolas do Brasil, essa projeção representa tanto uma oportunidade quanto uma responsabilidade. A agricultura regenerativa não substitui os sistemas convencionais de uma hora para outra, mas abre uma trajetória de transição que pode compatibilizar produtividade, conservação e rentabilidade.

O Regenera Cerrado, a expansão da irrigação e o crescimento da aviação agrícola compõem um conjunto de movimentos que sinalizam como o campo goiano está se preparando para os próximos anos. A aposta central é que eficiência e sustentabilidade não precisam ser escolhas opostas. O que o sudoeste de Goiás está mostrando, hectare por hectare, é que talvez essa aposta esteja mais próxima de se confirmar do que se imaginava.

Fontes: Broto Notícias: Projeto Regenera Cerrado | STG News: CRA Fazenda Canaã | Jornal Opção: Congresso AvAg 2026 | Agência Cora de Notícias: Cerrado em Pé

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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